O ASSASSINATO DE GALDINO
Como o assassinato de Galdino pode ser explicado de um ponto de vista causal, pela ótica que acabamos de apresentar sucintamente?
É o que vamos mostrar agora.
1º NO PLANO INDIVIDUAL
Podemos fazer a hipótese de que no caso dos rapazes em foco, faltou na sua educação, um despertar do amor ao próximo, da compaixão para os indefesos que sofrem. Faltou também uma educação dos limites à que se pode chegar nas relações interpessoais. Tem-se a impressão que os jovens estavam brincando com o fogo, para testar os seus limites; e descobriram, tarde demais, que atear fogo num ser humano mata e dá cadeia... O diálogo dos jovens entrevistados pelo Correio Brasiliense, através do jornalista Igor Germano, é bastante esclarecedor à este respeito: "Jogar ovo e papel higiênico molhado nas pessoas que passam em baixo do prédio é uma coisa, atear fogo é outra bem diferente". A questão do limite volta de várias formas.
Podemos também invocar a fantasia da separatividade, da falta de senso profundo da identidade de todas as coisas e sobretudo do ser humano; há necessidade de uma educação em que se reconhece que o mendigo, índio e gente abastada, são todos seres humanos.
2º NO PLANO SOCIAL
Estamos no mundo, numa Cultura de guerra e de Violência. Esta Cultura do jeitinho, do abraço, da solidariedade, do senso de hospitalidade, da alegria da Escola de Samba, do "Deixa disto". Os rapazes estão contaminados por uma normose em formação na qual se torna "normal" assustar mendigos com fogo, e brincar disto. Desta normose, faz parte uma banalização da violência.
Podemos nos perguntar até que ponto as imagens de violência diária na TV foram também um fator neste assassinato? Uma publicação da UNESCO deixa bem claro este fator.
No plano da organização social, há uma falta evidente de treinamento dos que hospedam os índios, já que Galdino foi recusado na pensão que devia hospedá-lo.
Também podemos aventar o ócio dos jovens da classe abastada, que não tem o que fazer e inventam diversas perigosas, o que aliás lhes estimula a vaidade e a competição.
Há também a falta de educação dos excluídos, sobretudo nos jovens da classe rica. Cristovam Buarque foi o primeiro a aventar este aspecto político das diferenças sócio-econômicas.
3º PLANO DA NATUREZA
Este é um aspecto mais inconsciente e desconhecido pela maioria das pessoas.
É a necessidade de uma educação para saber se relacionar condignamente com os produtos oriundos da natureza.
O assassinato foi feito através do uso de produtos resultantes de tecnologias de transformação da matéria; no caso presente, o álcool pega fogo.
Entre a bomba de Hiroshima, a clonagem indevida e o incendiar um índio com fósforos e álcool, haverá tanta diferença?
Para terminar, façamos votos que a morte de Galdino, sirva de lição para que se inicie uma vasta campanha de Educação para a Paz. A UNIPAZ já deu o exemplo no seu Programa Beija-Flor. Mutirão nacional de Educação para a Paz.
Hiroshima nunca mais...
Tortura nunca mais...
Galdino nunca mais...
Pierre Weil
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