ENTREVISTA COM PIERRE WEIL - EDUCAÇÃO PARA A PAZ
Autor: Márcia Schmidt
Autor de "O Corpo Fala" e "Amar e Ser Amado", além de outros 40 livros em português, Pierre Weil é Reitor e criador da Universidade Holística Internacional em Brasília, da Fundação Cidade da Paz, ou simplesmente Universidade da Paz (UNIPAZ). Aos 74 anos, esse francês radicado no Brasil há 50 anos, que se diz cidadão do mundo, é um jovem empreendedor que luta com criatividade e eficiência para salvar o homem e o planeta da destruição. Inspirando-se na UNESCO, ele afirma que a violência começa na nossa mente e que a educação pode transformá-la em paz.
Nesta entrevista, Pierre Weil fala de sua trajetória pessoal, de métodos educacionais alternativos para a paz e do perfil da universidade que ajudou a criar.
- Como foi a sua trajetória pessoal?
PW - Esse ano faz 50 anos que estou no Brasil. Eu sou cidadão do mundo, antes de tudo, mas tenho o Brasil no meu coração. O Brasil representa a síntese da minha própria origem. Eu sou alsaciano, venho de uma família de três religiões diferentes e duas culturas em guerra, alemã e francesa. Os católicos, protestantes e judeus da minha família se degladiavam entre si. Então muito cedo eu sonhava em criar a "Associação Católica dos Judeus Protestantes em favor do Maometanismo Budista".
Alistei-me como voluntário na Segunda Guerra Mundial mas não estive em combate, recusei-me a pegar em armas. Trabalhei na Cruz Vermelha, então nunca matei ninguém. Foi durante a Guerra que comecei a sonhar com uma Universidade, uma Instituição, que estivesse a serviço da paz e da educação pela a paz, onde se juntassem todos os métodos educacionais modernos e eficazes, e é isso que estamos fazendo já há 10 anos na Universidade Holística. Antes de vir para o Brasil, estudei Educação na França e Psicologia na Suiça. Vim para o Brasil com 24 anos para ficar três meses e faz 50 que estou aqui.
- Em que cidades o senhor morou antes de Brasília?
PW - Fiquei 10 anos no Rio de Janeiro. 30 anos em Belo Horizonte e já estou há 10 em Brasília. Tenho filhos brasileiros e franceses, netos e bisnetos. No Rio, no SENAC, montei uma rede de Orientação Educacional e Profissional que mantive por 10 anos. Foi em Belo Horizonte que entrei numa crise existencial - adoeci, tive câncer, pensei que fosse morrer e então comecei a me fazer as grandes perguntas tais como "o que eu estou fazendo aqui?", "qual o sentido da existência?" "o que existe após a morte?". Atrás dessas grandes perguntas vieram as respostas. Fiz psicanálise e acabei fazendo um retiro de três anos de yoga com mestres tibetanos no sul da França.
Isso me levou a uma nova visão de mundo, a responder as minhas perguntas, e quando a gente descobre um caminho que nos leva a verdadeira natureza do espírito, não queremos guardar isso para nós mesmos, queremos isso para outros também. E com essa Universidade, estamos passando isso para os outros.
- Qual é o perfil dessa universidade?
PW - Somos uma equipe interdisciplinar que trabalha junto há dez anos com base em uma teoria fundamental. Isso resume toda nossa metodologia: visão holística do homem, relacionamento do homem com ele mesmo (ecologia interior), com os outros (ecologia social) e com a natureza (ecologia ambiental). É um novo conceito de ecologia.
- Como se trabalha na prática com esses conceitos?
PW - Nós transformamos esses conceitos teóricos em dois modelos educacionais: A Roda da Destruição e a Roda da Paz.
No primeiro modelo, para fazer o diagnóstico da destruição da vida no planeta, nós reconstituímos a gênese dessa destruição. Ela começa por uma fantasia de separatividade, a dualidade sujeito-objeto, o indivíduo e o mundo - que é o vademecum até hoje da própria ciência e que a Física Quântica está questionando.
Essa fantasia de separatividade leva o ser humano ao apego, a emoções destrutivas. Existe ele e o mundo e então tudo que lhe dá prazer no mundo ele quer para si - e aí começam as emoções destrutivas que também provocam problemas fisiológicos. Esse ser em destruição no plano da mente, das emoções e do corpo, vai criar uma sociedade desajustada, tanto no plano da cultura como no plano da vida social, da economia e do habitat. Essa sociedade desajustada reforça o desajuste do indivíduo pela normose.
- O que é normose?
PW - É um conceito que criamos em conjunto com o francês Jean Yves Leloup, um dos nossos colaboradores. Normose é a aquisição de crenças, estereótipos, hábitos, comportamentos, que são incorporados por todos e passam a ser considerados normais, mas na verdade são altamente destrutivos. Exemplo: As pessoas acham normal declarar guerra e matar o inimigo, como achavam normal a prática do duelo, como acham normal fumar.
- Como acham normal incendiar um índio...
PW - Não, isso ainda não é uma normose. Está ficando uma normose em certos círculos de jovens. Há muitas normoses. Essa sociedade em destruição destrói a natureza, que por sua vez ameaça a vida do homem. Está formado um círculo vicioso da destruição da vida no planeta.
- Isso se aplica a indivíduos de todas as culturas, de todas as sociedades ou apenas a indivíduos dessa sociedade judaico-cristã que a gente conhece?
PW - Esse modelo se aplica a todos os seres humanos. Esse círculo mente-emoção-corpo é um círculo vicioso porque a fantasia da separatividade leva ao apego ou à rejeição, à possessividade que por sua vez leva ao estresse, que leva a doença, que leva ao sofrimento e o sofrimento reforça a separatividade.
- Possessividade é apego a coisas materiais?
PW - Não só, pode ser também a pessoas e a idéias. Assim, alguém se apega a uma idéia e, por medo de ser roubado, vai tirar patente. Cria o medo. O apego leva ao medo e esse ao estresse.
- E o que caracteriza o segundo modelo educacional, a Roda da Paz?
PW - Transformamos o primeiro modelo, a Roda da Destruição, no segundo. A Roda da Paz constitui verdadeiro roteiro para os nossos programas de formação.
O que fazemos é retomar esse modelo, homem-sociedade-natureza e transfomá-lo em formas positivas, construtivas. No plano de ecologia individual, despertamos, em nível da mente, a sabedoria; em nível da emoção, amor, alegria, compaixão e equanimidade; em nível corporal, a saúde - saúde no sentido da organização mundial da Saúde - estado de equilíbrio interno, no conjunto, equilíbrio não só do sistema individual como no sistema social e planetário. E, no plano da ecologia social, trabalhamos com uma nova ética que integra os grandes valores da humanidade como liberdade, igualdade, fraternidade, beleza, verdade, justiça e ainda, cooperação em vez de competição, conforto essencial nos países pobres e limitação do consumismo nos países ricos. No plano da ecologia ambiental, buscamos a harmonia com a natureza, com os cinco elementos (terra, água, ar, fogo e espaço), o respeito à vida e o conhecimento cada vez maior da programática da natureza. Se aplicamos esse modelo educacional em universidades, escolas e empresas, poderemos ainda salvar a vida no planeta.
- E a aplicação desse programa começa pelo indivíduo?
PW - Nós temos que começar agindo ao mesmo tempo no plano individual, social e da natureza, porque não há tempo. Os efeitos são a longo prazo. Por exemplo: dentro da área onde fica a UNIPAZ, há uma cascalheira utilizada pelo Governo na construção de estradas. Como a cascalheira estava interferindo no lençol freático lutamos dois anos par que o Governo acabasse com ela. Foi uma intervenção direta, de natureza ecológica, no ambiente em que a gente vive.
- Como seria aplicar esse programa numa empresa?
PW - Eu tenho um livro sobre isso que se chama "Tecnologias e Organizações para o século XXI". Em uma empresa é preciso lidar ao mesmo tempo com a pessoa, a produção e a plenitude. São três "Pês". A plenitude refere-se à natureza, incluindo a natureza interior do ser humano.
- Trabalhar com os três "Pês" também é o objetivo da Universidade da Paz?
PW - Sim, é isso que nós fazemos. No plano empresarial consideramos a UNIPAZ como um organismo vivo e não uma organização.
- E como esse objetivo é posto em pratica?
PW - Na Universidade, temos formação em três planos diferentes: no plano da Educação, Estudos e Pesquisas e Ação Reparadora (ação sobre o que já foi destruído na natureza). Cada um desses cursos é dado em três enfoques diferentes: o do indivíduo, da sociedade e da natureza.
No plano de educação também temos três níveis - sensibilização, formação pós-formação. No plano de Estudos e Pesquisas é variado. Compreende desde estudos de acompanhamento pedagógico até investigação de assuntos como a Transcomunicação com seres de outras dimensões. E, no plano da Ação Reparadora, o Colégio Internacional dos Terapêutas trata de reciclar terapêutas enfocando o indivíduo, a sociedade e a natureza.
- Que cursos a UNIPAZ oferece dentro do nível de sensibilização?
PW - No nível da sensibilização nós temos o seminário "A Arte de Viver em Paz". O programa é uma contribuição da UNIPAZ para o programa da ONU "Nosso Futuro Comum" e da UNESCO "Paz no Espírito dos Homens", tendo sido aprovado na 26ª Assembléia Geral da ONU para Educação, Ciência e Cultura, como um método educacional para a paz. Visa sensibilizar e despertar em jovens e adultos a consciência de que a fonte de destruição, violência e guerra encontram-se dentro de nós e que o potencial da paz é responsabilidade de cada um.
"A arte de viver em paz" é um seminário de 12 horas, onde compartilha reflexões e vivência sobre a paz consigo mesmo (ecologia interior), a paz com os outros (ecologia social) e a paz com a natureza (ecologia ambiental). O seminário foi publicado pelo UNESCO e já foi traduzido para seis línguas. Os Workshops acontecem mensalmente na Universidade Holística e também podem ser ministrados em Universidades, Escolas, Empresas e Clubes, em Brasília e outros Estados. Também temos um programa chamado "Beija-Flor", que é nacional e internacional.
- Como é o programa "Beija-Flor"?
PW - A idéia é que se todos os educadores do Brasil fizessem a sua parte, podemos, unidos, contribuir para despertar a paz no coração dos homens. Nós nos inspiramos na história do Beija-Flor. Havia um Beija-Flor que, junto com os outros animais, fugia de um incêndio na floresta. Mas ele era o único que fazia algo pelo incêndio: tomava gotas de água de um lago e as jogava no fogo. Um intrigado tatu perguntou: "Beija-Flor, você acha que vai apagar o incêndio com essas gotas?" "Com certeza, não!", respondeu o Beija-Flor. "Mas eu faço a minha parte..."
Como acreditamos que a educação pode transformar violência em paz, e cansados de assistir à onda de massacre que atinge crianças, adolescentes e adultos no Brasil, resolvemos agir por meio de um mutirão, mobilizando os principais meios educacionais e organismos governamentais e não-governamentais do País, para difundir e executar um Plano de Educação pela Paz a curto, médio e longo prazo. O mutirão quer ajudar o Brasil e o mundo a saírem progressivamente da crise de violência que o está assolando, e introduzir programas de educação para a paz nas escolas pré-primárias, secundárias e superiores, nas escolas profissionais, nas empresas, organizações e na mídia. "A arte de Viver em Paz" foi o método educacional escolhido para o programa Beija-Flor.
- O corpo discente da UNIPAZ se desloca para outros estados para ministrar os seminários?
PW - Não, nós formamos multiplicadores que dão esses cursos no Brasil inteiro. O seminário "A Arte de Viver em Paz" é um pré-requisito para os cursos de aprofundamento "Animadores para a paz", que habilita pessoas para divulgar futuros seminários e "Educadores para a Paz". Esse último é um curso de formação com duração de três meses com estágio. Nós temos sete Campos Avançados da UNIPAZ no País para formar multiplicadores: em Porto Alegre, Campinas, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza. O do Rio de Janeiro fica na Lapa e o de Porto Alegre na beira do Guaíba, no Bairro Tristeza.
- Como funciona a parte internacional da Universidade?
PW - A UNIPAZ também estende a sua ação a outros países. Atualmente estamos com esse programa "Beija-Flor" em Paris, Lisboa e na Inglaterra. Em Paris já existe o "Centre Europein de la Education pour la Paix", para formar multiplicadores. Os alunos são provenientes da França, Bélgica, Alemanha e Suíça e já estão implantando os cursos em seus países. Na Inglaterra foi criado a "Foudation Peace Education".
- E tudo isso partiu do Brasil? E sob sua orientação?
PW - Sim, com ajuda de muitos colaboradores competentes e dinâmicos.
- Quantos alunos já passaram pela UNIPAZ nesses 10 anos?
PW - Eu cálculo de seis a dez mil.
- O senhor também tem um livro chamado "A arte de Viver em Paz"?
PW - Sim. O seminário "A Arte de Viver em Paz" foi publicado originalmente em francês pela UNESCO e a Editora Gente traduziu-o para o português e publicou-o na forma de livro em 1993. Como o seminário, trata-se de uma nova pedagogia da paz. As pessoas pensam que vão acabar com a violência tirando as armas ou fazendo novas leis, mas não se acaba com a violência usando-se de mais violência. Ao contrário, transforma-se violência em amor. E é somente através da educação de crianças, adolescentes e adultos, que se pode despertar a plena consciência, a verdadeira natureza do espírito, que integra sabedoria e amor.
|