DESEMPREGO: EM DIREÇÃO A UMA CIVILIZAÇÃO DO LAZER?
Um dos males maiores que assola a nossa civilização industrial é sem dúvida o desemprego.
As suas causas são bastante conhecidas e podem ser resumidas por uma simples enumeração:
- A automação e a informática, contrariamente ao que seus profissionais prometeram no início, estão substituindo o trabalhador pela máquina, de modo irreversível, incluindo nisso secretarias e tradutores.
- Invasão incontrolável de trabalhadores do terceiro mundo no primeiro mundo e em geral dos que provém de regiões pobres para regiões ricas, e das regiões rurais para metrópoles.
- Aumento significativo da mão-de-obra feminina que tende a dobrar os efetivos de mercado de trabalho.
- Altas taxas de juros, em certos países, como medida antiflacionária, mesmo que provisória.
- Explosão demográfica, sobretudo nos países pobres, aumentando significativamente a mão-de-obra.
- Incremento das medidas de racionalização do trabalho, programas de "Qualidade Total" e sobretudo de "reengenharia", com os seus "enxugamentos".
- Globalização da economia mundial suprime empregos nas regiões com salários elevados.
- Substituição das pequenas empresas pelas grandes organizações tais como supermercados ou cartéis industriais.
Os trabalhadores erradicados do mercado de trabalho aumentam de modo significativo o número de excluídos. Cada vez mais marginalizados, eles são forçados a sustentar a si mesmos e fazer sobreviver suas famílias; a abrirem mão da sua ética, entrando na delinqüência, no tráfico de drogas e na violência.
Em recente livro escrito por dois jornalistas alemães Hans Peter Martin e Harald Schumann, intitulado "A Armadilha da Globalização", os autores relatam as conclusões a que chegaram representantes das grandes multinacionais. Só alguns jornalistas foram autorizados a assistir ao conclave. As conclusões são estarrecedoras quanto ao assunto que nos interessa aqui. Avaliando o futuro da economia mundial, só 20% da população ativa do Planeta serão consideradas suficientes para dar conta da produção. Isto significa que 80% serão excluídos e alijados da possibilidade de ganhar o seu sustento e o da sua família. O que será deles?
Estamos aqui diante do que seja talvez o maior desafio econômico dos últimos séculos... Interessante é constatar que se trata de um desafio para todos os grandes segmentos da sociedade: Para os trabalhadores acabou o seu sustento. Para os governos há uma diminuição drástica da receita de impostos, para as empresas perdeu-se a maior fonte da sua receita, as dos consumidores; até que ponto o neocapitalismo não estará caindo num círculo vicioso? Mais dispensa de empregados e quadro-dirigentes para produzir mais e com melhor qualidade de serviços e produtos, e menos os consumidores terão para escoar as mercadorias. Estará o neocapitalismo se suicidando aos poucos?
Qual a solução para este dilema? Existe? Pensamos que sim, desde que se mude de ótica sócio-econômica. Pensamos que existe uma saída desde que se adote uma visão inteiramente nova do que poderá ser a sociedade e do papel do ser humano nela.
Seria uma sociedade de lazer, feita para o ser humano estudar, evoluir, viver amor e alegria em caráter permanente. Para os oitenta por cento, a questão não é mais de arranjar emprego, mas sim de ter renda para viver o conforto essencial, e poder comprar o necessário para este fim. Para o governo se trata de assegurar para todos o que hoje é considerado como salário-desemprego e que vira uma remuneração básica. Para os organismos de produção de bens, estes encontrarão nesta remuneração básica, a sua fonte primordial de manter um consumo indispensável à sua subsistência. E os que querem trabalhar por vocação entrarão nos vinte por cento integrados na vida econômica. O governo poderá obter recursos para a remuneração básica dos oitenta por cento, graças a um novo sistema fiscal com taxas sobre todas as máquinas que tiraram do ser humano o seu ganha-pão. Cabe a elas principalmente assegurar o consumo da sua produção. Pode-se obter também recursos através de impostos sobre os vinte por cento da população do sistema produtivo, já que sua remuneração seria bem maior que a de base. Será que os economistas poderiam encontrar soluções criativas dentro deste novo cenário? De qualquer forma, eles devem levar em consideração a necessidade de um desenvolvimento viável em função da necessidade de preservar a vida no Planeta. Isto complica a tarefa que vai exigir talvez um retorno a um certo dirigismo econômico, evitando os riscos políticos de ditadura.
- Entraremos assim numa nova civilização que um sociólogo francês, Jofre Dumazedier, chamou, na primeira década do século XX de "civilização do lazer". Se levarmos estas considerações às últimas conseqüências e como última e única alternativa para o desemprego, teremos que nos perguntar o que irá acontecer sem elas: o isolamento sócio-econômico, a miséria ou a volta, para os oitenta por cento, ao regime da taba indígena?
Pierre Weil
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