BRASIL: UMA CULTURA DE PAZ AMEAÇADA
Ao tomar posse do seu cargo de Diretor Geral da UNESCO, por reeleição, em 1994, o Dr. Frederico Maior fez uma declaração que muito poderá ajudar a sairmos da crise de violência que assola o mundo. Ele criou um novo conceito, ao declarar que o mundo vive sob influência de uma Cultura de Guerra, e que é preciso substituir esta Cultura de Guerra por uma Cultura de Paz. A UNESCO já está começando a aplicar este princípio em El Salvador, onde uma equipe de educadores e cientistas sociais está trabalhando nesta direção, depois da guerra que quase destruiu este país.
Pensando no Brasil, levantei uma hipótese complementar, ao conviver e conhecer este país que passei a amar profundamente: o Brasil é uma Cultura de Paz autêntica. Podemos até tirar uma série de critérios que permitiriam definir o que é mesmo uma Cultura de paz, ao observar o Brasil e o comportamento dos brasileiros.
Em primeiro lugar a sua diplomacia, desde os tempos de Ruy Barbosa, é uma diplomacia silenciosa da Paz; onde há conflitos o Itamarati tende incentivar a negociação para evitar o conflito armado.
Esta diplomacia provavelmente reflete um caráter de cultura popular: "jeitinho", o "deixa disto", que faz com que, na prática diária, há quase sempre uma solução para o conflito, uma mediação encontrada por terceiros generosos e voluntários.
Em matéria de guerras, a história do Brasil mostra uma freqüência extremamente baixa. É pouco imaginável os brasileiros tramando agredir um dos seus vizinhos seja qual for ele.
A cultura brasileira é a do abraço, gesto afetuoso e receptivo que foi um dos fatores que me conquistou quando aqui cheguei há quarenta e cinco anos.
É também uma cultura de tolerância, pois aqui convivem subculturas provindo de nações que aí fora estão em guerras periódicas. Aqui os seus representantes trabalham juntos e convivem na maior harmonia.
Brasília, como capital deste país maravilhoso, pode ser considerada "Cidade de Paz", pois ali estão as Embaixadas de todos os países localizados no mesmo bairro. Isto facilita a convivência dos diplomatas. Sei de casos de diplomatas que convivem e freqüentam amistosamente a casa de cada um, apesar dos seus países estarem em conflito sério. Esta convivência muito facilita silenciosa da paz, estabelecendo canais informais de negociação.
O mutirão e a escola de samba são também exemplos populares de espontaneidade amorosa, de cooperação harmoniosa e de ajuda recíproca dentro de um espírito de solidariedade.
Esta cultura de paz está agora ameaçada pela miséria e a fome que faz com que pais de famílias se deixem arrastar em arrastões coletivos bem sintomáticos. O narcotráfico encontra terreno fértil para se implantar com toda a violência que o caracteriza. Em outras épocas houve também fatores ameaçadores da cultura da Paz: o Coronelismo em plena decadência, a luta pelo ouro e pedras preciosas e certos ódios políticos.
Existem sem dúvida outras culturas de Paz no Mundo: Costa Rica, o único país sem exército, a Suíça, conveniência de três culturas lingüísticas, os países escandinavos, entre outros. Cargo de Confiança ou de Carreira?
Pierre Weil
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